

VISÃO DE CLARICE LISPECTOR
Clarice,
veio de um mistério, partiu para outro.
Ficamos sem saber a essência do mistério.
Ou o mistério não era essencial,
era Clarice viajando nele.
Era Clarice bulindo no fundo mais fundo,
onde a palavra parece encontrar
sua razão de ser, e retratar o homem.
O que Clarice disse, o que Clarice
viveu por nós em forma de história
em forma de sonho de história
em forma de sonho de sonho de história
(no meio havia uma barata
ou um anjo?)
não sabemos repetir nem inventar.
São coisas, são jóias particulares de Clarice
que usamos de empréstimo, ela dona de tudo.
Clarice não foi um lugar-comum,
carteira de identidade, retrato.
De Chirico a pintou? Pois sim.
O mais puro retrato de Clarice
só se pode encontrá-lo atrás da nuvem
que o avião cortou, não se percebe mais.
De Clarice guardamos gestos. Gestos,
tentativas de Clarice sair de Clarice
para ser igual a nós todos
em cortesia, cuidados, providências.
Clarice não saiu, mesmo sorrindo.
Dentro dela
o que havia de salões, escadarias,
tetos fosforescentes, longas estepes,
zimbórios, pontes do Recife em bruma envoltas,
formava um país, o país onde Clarice
vivia, só e ardente, construindo fábulas.
Não podíamos reter Clarice em nosso chão
salpicado de compromissos. Os papéis,
os cumprimentos falavam em agora,
edições, possíveis coquetéis
à beira do abismo.
Levitando acima do abismo Clarice riscava
um sulco rubro e cinza no ar e fascinava.
Fascinava-nos, apenas.
Deixamos para compreendê-la mais tarde.
Mais tarde, um dia... saberemos amar Clarice
Carlos Drummond de Andrade
"Afinal, quem foi Clarice Lispector - este mito que sobrevive às próprias recordações daqueles que a conheceram, e transcende qualquer adjetivo literário? Ela sempre fez questão de dizer que era uma mulher simples, uma mãe coruja, uma amiga generosa. Os livros foram nascendo entre uma mamada e outra, enquanto ela tentava "ser" neste mundo. Mas toda sua obra surgiu despretensiosamente, com o silêncio da concha que carrega no seu mais íntimo, o grão de areia a tornar-se pérola.
A história de vida de Clarice Lispector é toda feita de aventuras, e - por que não dizer? - tentativas de sobrevivência"

Com a homenagem de Carlos Drummond de Andrade encerro a semana com Clarice Lispector.
Mooooooooooooooooooooorta de saudade !!!!
Meu beijo em cada um que aqui passou,

Eternidade:
pois tudo o que é nunca começou.
Minha pequena cabeça tão limitada estala ao pensar em alguma coisa
que
não
começa
e
não
termina.
Clarice Lispector