Artes (com) trastes e traquinagens


05/04/2006


 

 

 

 

 

VISÃO DE CLARICE LISPECTOR


Clarice,
veio de um mistério, partiu para outro.
Ficamos sem saber a essência do mistério.
Ou o mistério não era essencial,
era Clarice viajando nele.
Era Clarice bulindo no fundo mais fundo,
onde a palavra parece encontrar
sua razão de ser, e retratar o homem.
O que Clarice disse, o que Clarice
viveu por nós em forma de história
em forma de sonho de história
em forma de sonho de sonho de história
(no meio havia uma barata
ou um anjo?)
não sabemos repetir nem inventar.
São coisas, são jóias particulares de Clarice
que usamos de empréstimo, ela dona de tudo.
Clarice não foi um lugar-comum,
carteira de identidade, retrato.
De Chirico a pintou? Pois sim.
O mais puro retrato de Clarice
só se pode encontrá-lo atrás da nuvem
que o avião cortou, não se percebe mais.
De Clarice guardamos gestos. Gestos,
tentativas de Clarice sair de Clarice
para ser igual a nós todos
em cortesia, cuidados, providências.
Clarice não saiu, mesmo sorrindo.
Dentro dela
o que havia de salões, escadarias,
tetos fosforescentes, longas estepes,
zimbórios, pontes do Recife em bruma envoltas,
formava um país, o país onde Clarice
vivia, só e ardente, construindo fábulas.
Não podíamos reter Clarice em nosso chão
salpicado de compromissos. Os papéis,
os cumprimentos falavam em agora,
edições, possíveis coquetéis
à beira do abismo.
Levitando acima do abismo Clarice riscava
um sulco rubro e cinza no ar e fascinava.
Fascinava-nos, apenas.
Deixamos para compreendê-la mais tarde.
Mais tarde, um dia... saberemos amar Clarice

 

Carlos Drummond de Andrade

 

 

 

 

"Afinal, quem foi Clarice Lispector - este mito que sobrevive às próprias recordações daqueles que a conheceram, e transcende qualquer adjetivo literário? Ela sempre fez questão de dizer que era uma mulher simples, uma mãe coruja, uma amiga generosa. Os livros foram nascendo entre uma mamada e outra, enquanto ela tentava "ser" neste mundo. Mas toda sua obra surgiu despretensiosamente, com o silêncio da concha que carrega no seu mais íntimo, o grão de areia a tornar-se pérola.
A história de vida de Clarice Lispector é toda feita de aventuras, e - por que não dizer? - tentativas de sobrevivência"

 

 

 

Com a homenagem de Carlos Drummond de Andrade encerro a  semana com Clarice Lispector.

Mooooooooooooooooooooorta de saudade !!!!


Meu beijo em cada um que aqui passou,

S a Y ô

Escrito por Sayô & Shara às 10h33
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04/04/2006


 

 

 

 

 

 

Eternidade:

 pois tudo o que é nunca começou.

Minha pequena cabeça tão limitada estala ao pensar em alguma coisa

que

não

 começa

e

não

 termina.

 

 

 

Clarice Lispector

Escrito por Sayô & Shara às 08h18
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03/04/2006


 

 

 

 


 

"A violeta é introvertida
e sua introspecção é profunda.
Dizem que se esconde por modéstia. Não é.
Esconde-se para poder captar o próprio segredo.
Seu quase-não-perfume
é glória abafada
mas exige da gente que o busque.
Não grita nunca o seu perfume.
Violeta diz levezas que não se podem dizer."

 

Clarice Lispector

 

 

 

Sobre seu nome : É um nome latino, né, eu perguntei para o meu pai desde quando havia Lispector na Ucrânia. Ele disse que há gerações e gerações anteriores. Eu suponho que o nome foi rolando, rolando, perdendo algumas sílabas e se transformando nessa coisa que parece "LIS NO PEITO", em latim: flor de lis.  Clarice Lispector

 

 

Escrito por Sayô & Shara às 09h33
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02/04/2006


 

 

 

Imagem : Exotéricus / Eva Soares

 

 

Estrela perigosa

 

Estrela perigosa
Rosto ao vento
Barulho e silêncio
leve porcelana
templo submerso
trigo e vinho
tristeza de coisa vivida
árvores já floresceram
o sal trazido pelo vento
conhecimento por encantação
esqueleto de idéias
ora pro nobis
Decompor a luz
mistério de estrelas
paixão pela exatidão
caça aos vagalumes.
Vagalume é como orvalho
Diálogos que disfarçam conflitos por explodir
Ela pode ser venenosa como às vezes o cogumelo é.
No obscuro erotismo de vida cheia
nodosas raízes.
Missa negra, feiticeiros.
Na proximidade de fontes,
lagos e cachoeiras
braços e pernas e olhos,
todos mortos se misturam e clamam por vida.
Sinto a falta dele
como se me faltasse um dente na frente:
excrucitante.
Que medo alegre,
o de te esperar.

 

Clarice Lispector

Escrito por Sayô & Shara às 09h37
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01/04/2006


 

 

 

Imagem : Sem título / 1975 - Clarice Lispector

 

 


Dá-me a Tua Mão

 

Dá-me a tua mão:
Vou agora te contar
como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta.
De como entrei
naquilo que existe entre o número um e o número dois,
de como vi a linha de mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia.
Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
– nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio.

Clarice Lispector

 

 


Nada existe de mais difícil do que entregar-se ao instante. Esta dificuldade é dor humana. É nossa. Eu me entrego em palavras e me entrego quando pinto. Clarice Lispector

 

 

 

Escrito por Sayô & Shara às 11h29
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Artes (com) trastes e traquinagens

Nós, Sayonara e Shara, resolvemos criar um blog que fale mais da vida, das relações entre as pessoas,das questões que envolvem o nosso mundo,especialmente sobre a poesia,a música, a dança...
Queremos falar das coisas cotidianas, das nossas coisas, não para falar do mundo privado pelo mundo privado, como no Big Brother Brasil, mas para falar das coisas que façam as pessoas olharem para o mundo externo, aquele que nos provoca, nos faz pensar e nos mobiliza a olhar para nós mesmos.
A arte com singularidade nos possibilita isso, sair de si e entrar no universo de múltiplos e intensos contrastes dos outros. Assim, a proposta é que 'trastes' de todo tipo invadam o nosso blog e proliferem as traquinagens que fertilizam os nossos corpos alegres, dançantes, embriagados.
Artes (com) trastes e traquinagens espera ser um agradável cantinho,para os chegados, os estranhos,os nômades e os trastes de todo tipo ou ideais.

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