Encerrando a semana com uma cronica ,....hunnn,.....um pouco de humor..
Beijunda
Sayo
Assuntos delicados de uma moça nem tanto -Clarah Averbuck-
Tanto me estressaram que minhas hemorróidas voltaram. Grotesco. Você já teve hemorróidas? Eu achava que era doença de velho, até que um dia meu cu doeu muito enquanto eu ia aos pés e eu vi sangue. Uma pomadinha e ficava tudo bem, passava em uma semaninha, mas dessa vez era diferente, só porque eu estava extremamente estressada tinha que ser pior. Eu estava praticamente menstruando pelo cu. De verdade. Nunca saiu tanto sangue, nunca houve tanto sofrimento involuntário em um cu como no meu naquele momento. Não conseguia nem sentar direito, tive que suprimir a pimenta com um grande sacrifício, tinha que enfiar a veia com o bico da pomada de volta lá pra dentro, tinha que mastigar bem. Resolvi comprar uma tampa de privada fofa, eu merecia. Era um dia muito, muito quente, eu tive que sair de casa para fazer alguma coisa importante que era bem menos importante do que a tampa fofa de privada.
Não sei o que acontece com os vendedores, mas, quanto mais constrangedora é a sua compra, mais eles se metem, e mais alto, como se estivessem descaradamente tirando uma da nossa cara. Da minha, da minha. Isso não deve acontecer com todo mundo. Quando eu ia comprar a pomada sempre evitava a farmácia ao lado da minha casa, que é bizarrona e tem caixas de som tocando coisas inomináveis, você indo ali comprar um obzinho e as vendendoras "rá, seu cabelo precisa ser pintado! Veja nossa promoção de tintas, yadayada". Uma vez eu fiquei com herpes nos lábios de baixo (stress de novo, o stress sempre ataca minhas partes baixas) e, quando pedi a pomada, o senhor, que eu imagino ser o dono da farmácia e idealizador de toda aquela idéia errada, perguntou, olhando na minha cara:
– "É no lábio?"
– "É."
– "Cadê? Não tô vendo"
– "...?"
– "Cadê a herpes?"
– "Não é em cima, meu senhor..."
Ele arregalou os olhos e disse BEM ALTO, para que TODOS que estivessem na farmácia escutassem:
– "MAS FILHA, VOCÊ SABE QUE NÃO PODE FAZER SEXO COM ISSO AÍ, NÉ?"
Fiquei meio catatônica, devo ter gaguejado um claro que sei, peguei a pomada e me mandei. Agora só volto ali em questões emergenciais. Não adiantou, passei pela mesma coisa em outro lugar. Eu devo ter cara de pessoa receptiva, deve ser isso. Cheguei na outra farmácia e pedi uma determinada pomada para hemorróidas.
– "Essa não é muito boa... Qual o grau?"
Grau. Ele queria saber o grau da veia estourada no meu cu.
– "Não sei."
– "Dói?"
– "Terrivelmente."
– "Sangra?"
– "Litros."
– "A veia está para fora?"
– "Então, me dá uma pomada aí. Qualquer uma. Estou com pressa."
A que ele me indicou realmente era melhor, mas, poxa, era do meu cu que estávamos falando ali, sabe? Não gosto de discutir coisas íntimas como meus relacionamentos e meu cu com estranhos.
Tudo isso pra contar que eu cheguei na loja de tampas de privada bem quietinha, escolhi o assento mais fofo de todos, me dirigi ao caixa e esperei. Veio um velhinho beeem velhinho.
– "Ô fia! Só isso mesmo?"
– "É."
– "Tem outra mais fofa ali, cê viu? Tião, traz aquela ali aqui pra moça ver!"
Tião e todos os tios que estavam ali viraram para ver quem era a moça, que inclusive era a única moça do lugar. E lá veio o Tião com mais três assentos, todos fofos e de cores pastéis. Eu já disse, sou pela estética, meu banheiro é preto e branco, eu queria uma tampa preta, aquela tampa que eu tinha escolhido. Tentei explicar isso tudo depois que o tio já tinha me feito apertar todas elas, quando ele teve certeza que eu tinha certeza do que queria. Oh, Deus. E a preocupação dele era genuína, porque a que eu escolhi era a mais cara. Grande Tio. Paguei, tudo direitinho, até que o Tião me traz a tampa, meio sem graça.
– "Olha, dona, a gente num tem mais sacola não."
Suspirei, derrotada, vou fazer o que?, botei a tampa de privada debaixo do braço e saí no sol. É a vida. Todo mundo olhando o lugar onde eu em breve sentaria a bunda para descarregar necessidades, eu toda bonitinha andando com uma tampa de privada debaixo do braço e do sol. Caminhei até em casa olhando o chão e cantando alguma coisa baixinho, só pensando que eu tenho que aprender a não entrar em lojas de bairro. Grandes redes, grandes redes. Elas não servem pra nada quando se trata de discos e livros e cafés, mas, ah, as farmácias e as lojas que vendem tampas de privada, essas sim. Grandes redes. Onde cada um se mete com a sua própria vida e cuida do seu. Literalmente.